Sampa, Paulicéia ou o nome que vocês queiram dar!
Começa a noite na Grande São Paulo. A cidade sem limites, cujas fronteiras se perderam no fluxo de córregos imundos onde bóiam corpos em meio a detritos. Onde casas surgem umas sobre as outras sem nenhuma projeção de espaço. As casas comem umas às outras numa paisagem que lembra muito mais uma selva de concreto e madeira do que uma comunidade de pessoas. Ruas remendadas, crianças maltrapilhas jogando pelada na rua, cachorros esfomeados disputando ossos com mendigos. Essa é a cidade dos contrastes, das ilusões que surgem nos néons da Paulista e se acabam debaixo do Minhocão. Sonhos que desembarcam na Rodoviária do Tietê, percorrem o calvário da Brigadeiro Luís Antônio e agonizam nas ruas solitárias da Cracolândia.
São seis horas da tarde. Fim de expediente. Início da noite. Todos querem ir pra casa. Carros se acumulam nos labirintos das ruas em meio a pedintes e ladrões, bichas e prostitutas. O nosso trânsito é vertiginoso. “Me dá um dinheiro, moço!”, “Passa a grana!”, “O documento do carro, por favor!”, “Mãos na cabeça!”. Verde; Laranja; Vermelho. Alarmes, buzinas, sons dos motoboys. Fumaça de carro e de cigarro. STRESS! E todos correndo pra chegar em casa, rezando (quando se lembram) pra poder chegar em casa inteiros. Ninguém quer perder a novela das oito!
Não há mais o romantismo das garoas nem boêmios na noite de Sampa. Hoje encontramos apenas bêbados em botecos fedorentos se entupindo de cachaça pra ver se suportam o ritmo da cidade, pra ver se amortecem seus sentidos, assim eles podem se passar por simples bêbados, e não por loucos que gritam a dor da Paulicéia desvairada. Ah, Mário de Andrade, a tua Paulicéia se perdeu de vez, deita-se todos os dias na cama de políticos corruptos, de empresários usurpadores! Essa louca se vende por um prato de feijão, se entorpece nas dunas de cocaína que rolam nas veias do seu corpo alienado.
Não há Lua na cidade. No céu marrom e nublado, viciado na fumaça das fábricas, a única bola redonda, branca e iluminada que temos é o holofote de um helicóptero policial. Luz que rasga a escuridão das ruas estreitas da periferia procurando por marginais. Estes se escondem com os gatos pretos em lugares inusitados, não passam de tolos que sustentam os verdadeiros donos da farinha, os homens que habitam a região do Jardins, que dormem nos leitos confortáveis construídos à custa dos alucinados jovens que aspiram toda forma de consolação.
E das bocas, comandadas pelos trouxas, são escarrados todos os dias viciados, meninos, vagabundas, todas as espécies da “escória” que nossa cidade esconde. O regime do terror ganha força no Estado de fato. Não há direito, não há leis, não há moral. A sobrevivência é a máxima!
E de repente: Luzes vermelhas e azuis iluminam ruas da Brasilina, janelas se fecham, RATATATAS são ouvidos de todos os lados e confundidos com gritos de dor, latidos de vira-latas, o choro das mães. Um silêncio súbito. E de repente o sangue escorre pela sarjeta. Sangue de bandido? Sangue de polícia? Não. Constata-se que o sangue que corre é de um zé qualquer que voltava do trabalho. Mais um corpo que se transforma em apenas mais um número nas estatísticas. A revolta é sentimento no coração do povo, mas é só sentimento, e como um sentimento, se desfaz em medo na expressão estampada em frente às câmeras.
E assim, a noite vai sendo levada na cidade que não dorme. Na cidade em que os fogos de artifício são mesclados aos tiroteios. Enquanto uns comemoram o resultado de uma partida de futebol, outros se trancam nas suas casas ao sinal do toque de recolher. Fugindo dos exercícios de cidadania. Ser cidadão é perigoso. Antes, ser apenas um número qualquer, um RG nas estatísticas da segurança pública, um CPF nos dados da receita. Um número que se transforma numa Carteira de Trabalho de dia e num ponto do Ibope pela noite.
Prostitutas nas camas. Gays nas boates. Voluntários nos becos. Traficantes nas bocas. Viciados nas esquinas. Pais-de-família nas camas. Alcoólatras nos botecos. Crianças nos semáforos. Mendigos nos viadutos. Sons rotineiros e silêncios perturbadores. Luzes turvas e trevas sólidas. Essa é a minha São Paulo, uma terra paradoxal. Paisagem geográfica que é o corpo monstruoso e colossal desse Leviatã, o qual chamamos de SOCIEDADE. Gostaríamos que fosse apenas um pesadelo, mas ele é real e nos mastiga todo dia como Satanás a Judas no Inferno de Dante. Cidade grande e cheia, ao mesmo tempo que vazia e pequena. Não há palavras melhores pra adjetiva-la do que: nua, louca e desesperadamente solitária!
Escrito por Linoge em 2002.